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"É possível estabelecer uma relação entre um lugar real e um lugar criado em um game?"
 
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O que é isto?



Qual seria então a ligação entre o conceito da caverna e o cinema/vídeo-game?

Uma reflexão sobre a pergunta anterior já traz embutida a resposta para esta questão. As projeções ilusórias adquirem certo grau de realidade, pois, em última análise, mesmo o mundo em que vivemos pode ser visto como uma projeção ilusória – assim pensava Platão, como vimos. Ou seja, o cinema, os games, a realidade virtual, etc., tudo isto nos leva a refletir sobre o que é isto a que chamamos realidade. E, como ainda não temos respostas definitivas, o cinema e os games nos ajudam a preencher nosso imaginário e a nos fascinar. Eles nos remetem para estas esferas de menor, ou quem sabe até mesmo maior conteúdo de realidade. Acima de tudo, hoje em dia já não é tão simples definir os limites entre aquilo que se entende como virtual e como real. Que pode ser mais real que as guerras estilo video-game, que os Estado Unidos promovem? E, vale lembrar, até mesmo o romance moderno inaugura-se com esta mesma questão. No romance D. Quixote, de Cervantes, D. Quixote vive de criar sua própria realidade. Faz-se cavaleiro e luta heroicamente (mas também ridiculamente), contra os fantasmas que ele mesmo criou (e que também representam os fantasmas que todos nós, de uma forma ou de outra, temos que enfrentar).

Nós queremos tratar de identidade tanto no virtual quanto no real, você poderia nos explicar melhor e resumidamente como uma identidade é formada?

O conceito de identidade traz já embutido uma série de elementos contraditórios. E esta é sua riqueza e beleza. Eis que aquilo que nos faz ser o que somos deveria ser entendido como algo que não muda: o Rafael é o Rafael: tá lá – tem R.G., título de eleitor. Ou seja, só existe um. Mas o Rafael também é aquele que muda a todo o momento, levando-o a ser, num certo sentido, distinto de si mesmo. Ou seja, o Rafael - bebê já não existe mais. Somos seres mutantes; a mudança e o desejo de crescimento e aprimoramento parecem ser as leis que nos movem. Vale dizer, todos temos uma identidade e também múltiplas identidades, ou múltiplos papéis que assumimos no decorrer de nossa existência. Isto sem contar as múltiplas identidades que criamos para nós mesmos, dependendo dos contextos sociais onde interagimos. O Rafael - filho é diferente do Rafael - tricolor, torcedor do São Paulo, é diferente do Rafael - romântico, ou do Rafael - eleitor, político, etc. Os games também nos permite brincar e experimentar identidades que não ousaríamos na vida real. São vários os arquétipos que descrevem a experiência humana. Dar vida virtual a estes arquétipos não é algo novo, embora as possibilidades hoje em dia pareçam infinitamente maiores. A gente cria um nickname, entra num chat e dá vida para uma faceta de nós mesmos que é real, mas que a gente regula e permite aflorar apenas em certos ambientes. Então uma identidade se forma levando em conta o meio, a cultura na qual se está inserido, bem como as idiossincrasias, ou aquelas características de personalidade que nos fazem o que somos. 
As diferentes mídias vivem a nos bombardear com idéias e valores que pretendem dar uma certa formatação para esta identidade. Existe uma espécie de competição para que a gente se identifique com certos grupos, certas idéias, certas práticas, certos produtos, etc. Assim formam-se os diferentes movimentos culturais, as instituições religiosas, os guetos, a turma do funk, ‘os mano’, os surfistas, dark, trash, hippies, ‘geração saúde’ e por aí vai... Discutir sobre esses grupos, seus valores e onde estabelecer a linha que divide o virtual do real não é simples. Eu mesmo considero o universo dos bits & bites, a álgebra de Boole e os PCs modernos com mais realidade que a rainha da Inglaterra. Quando a gente deixar de acreditar que ela é rainha, a monarquia acaba. E isto é mais fácil de acontecer do que alguém refutar a álgebra booleana.

Como você enxerga essa identidade no “mundo” virtual?

Enxergo como mais uma oportunidade de expressar minha liberdade e refletir sobre os contextos éticos, uma vez que a esfera de ação se ampliando, gera novos questionamentos sobre como deveremos agir e nos comportar nesses novos ambientes. Mas, obviamente, são muitos os modos de se abordar essa questão. No campo psicológico o debate pode levar àquela coisa de dar espaço ao alterego. No campo psiquiátrico, leva â definição de novas patologias e formas de dependência. No campo dos relacionamentos humanos, aponta para novos modos de nos relacionarmos. No campo empresarial e militar, o universo virtual se transforma numa poderosa ferramenta para treinar os profissionais através de simuladores. No campo da educação, com o ensino à distância, essas coisas, o mundo virtual aparece como uma possibilidade espetacular para se revolucionar tudo o que a gente acredita e pensa saber sobre pedagogia, etc. Quem não gostaria de aprender de forma lúdica, interativa, como uma infinidade de possibilidades de se experimentar o conhecimento? 
Para dizer a verdade, acho que não posso responder essa pergunta de forma satisfatória, porque ela terá que ser respondida pelas pessoas como você e seu grupo. Eu até que posso vislumbrar este futuro, mas eu não pertenço a ele. Vocês sim. Vocês representam este futuro. E o futuro será conforme as novas gerações o moldarem. Acho que quando vocês terminarem este curso eu mesmo já terei revisto algumas de minhas posições em função destes novos desenvolvimentos que a universidade está propondo. Por outro lado, a gente também não pode se esquecer que, num certo sentido, todos os novos rituais, virtuais ou não, nada mais são que simples rituais. E rituais são antigos. Nasceram junto com a história da humanidade. O homem se pintava e dançava para os deuses -- representava já dentro desta a própria esfera que hoje cunhamos como virtual. Aí também a força da música, dos video-clips e por que não dizer, das identidades virtuais que os pop-stars adquirem. Você cresceu vendo e ouvindo Kiss – e eles já representavam esta identidade de um mundo quase virtual.


por Projeto Jenova às 00h30
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1. Imagine uma caverna com uma entrada aberta para a luz. No interior desta caverna há prisioneiros lá mantidos accorrentados desde a infância. Sequer conseguem mover as cabeças para o lado; só conseguem olhar para frente.
2. Imagine também que exista uma fogueira, um muro e homens passando por detrás do muro e carregando uma variedade de objetos. O muro esconde os homens e apenas deixa ver os objetos que eles carregam sobre a cabeça.
3. Imagine que o fogo projeta no fundo da caverna as imagens destes objetos que os homens carregam, mas não os homens, uma vez que eles se encontram detrás do muro. Alguns homens passam conversando e outros passam em silêncio, levando suas cargas. As sombras projetadas formam algo que lembram um teatro de marionete.

Glauco:
Que cena estranha! E que estranhos prisioneiros!

Sócrates:
1. Os prisioneiros são como nós. Não conseguem ver a realidade, mas apenas as sombras projetadas pelo fogo na parede do fundo da caverna.
2. Suponha agora que houvesse um eco vindo da parede onde as imagens estão sendo projetadas (Sócrates descreve aqui o que hoje entendemos por cinema).
3. Cada vez que um transeunte passasse carregando um objeto, se ele dissesse algo, a projeção mostraria o objeto e o eco da voz do transeunte. Você não acha que os prisioneiros deduziriam que as vozes estariam vindo daquelas sombras dos objetos projetados? Ou seja, os prisioneiros não acreditariam que aquelas sombras é que constituiriam a verdadeira realidade?
4. Agora imagina que um dos prisioneiros conseguisse se libertar daquelas correntes e pudesse caminhar um pouco em direção à luz exterior. Não ficaria cego e assustado? Não voltaria correndo para aonde crescera e para aonde já estava acostumado – as sombras do fundo da caverna?
5. E se acaso tivesse saído da caverna e experimentado a luz do sol? Sem antes habituar os olhos não ficaria confuso? Mas, ao cair da noite, já não estaria vendo a luz das estrelas e da lua mais claramente que a do sol durante o dia? Por fim, poderia ver o próprio sol e contemplá-lo tal qual ele é. E desta experiência única, passaria a tirar suas próprias conclusões, compreendendo como o sol produz as estações do ano e governa todas as coisas visíveis. Compreenderia inclusive que o que antes via na caverna eram simples sombras.
6. Não traria esta compreensão alegria? Não sentiria então desejo de compartilhá-la com seus companheiros, ainda prisioneiros do mundo de ilusão das sombras da caverna?
7. Mas considera o seguinte: se resolvesse descer de volta lá para o fundo daquela caverna, agora com os olhos acostumados com a luz, não se sentiria cego e no escuro? Não teria agora dificuldades inclusive para enxergar aquelas sombras que os olhos acostumados dos prisioneiros enxergavam tão bem?
8. Não passaria então por ridículo este homem que dizia saber de uma realidade superior, mas era incompetente para discernir aquelas sombras que os demais sabiam tão bem? Não diriam estes prisioneiros que ele voltara enlouquecido, e que o conhecimento que ele dizia possuir de nada valia? 
9. E não o matariam se pudessem (assim como haviam feito com Sócrates) quem quer que ousasse contrariá-los e dizer que havia um caminho para a luz?
10. Pois a caverna-prisão é este mundo, a fogueira são os raios solares, e ascender para fora da caverna para contemplar a luz do sol representa a ascensão da alma para as verdades metafísicas. Dentre elas, destaca-se a IDÉIA DO BEM, que a origem de todas as virtudes e de toda a beleza.
(continua post acima.)


por Projeto Jenova às 00h29
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Conforme foi programado, conseguimos uma entrevista com o filósofo Rubens Turci, começamos um bate-papo, e logo mais estaremos colocando sua formação e a continuação desta conversa.

Citamos em um dos nossos anexos a Caverna de Platão, assim, para podermos entender melhor, você poderia nos dar uma breve explicação sobre essa Alegoria?

A Alegoria da Caverna de Platão fala de um mundo interior (Farias Brito escreveu um interessante livro com esse título). Há um mundo dos factos do espírito humano (esse o título daquele que é provavelmente o primeiro texto de filosofia brasileira, de Gonçalves de Magalhães). Esse universo interior pode ser explorado de vários modos distintos. Por exemplo, numa linguagem mais moderna e cinematográfica, conforme o poder intuitivo daquele jovem cego, Tommy, o Pinball Wizard da famosa ópera rock feita pelos membros do The Who. Isto para não mencionar a textura mais sofisticada de filmes como o Matrix, etc. Mas, voltando a Platão (ca. 427-347 BCE), vamos considerar o contexto que o levou a criar sua alegoria, conforme ela aparece, no texto República, Livro VII. O contexto é o da morte de Sócrates. Platão, seu discípulo, não consegue se conformar como é possível que o mais justo dos homens, Sócrates (ca. 470-399 BCE), pudesse ter sido condenado pelo tribunal de justiça da época à pena morte, precisamente por ser considerado injusto e corrupto. Uma explicação plausível para tamanho absurdo, então, é esta representada pela alegoria da caverna, onde a filosofia aparece como a capacidade de discernir entre o verdadeiro e o falso, entre o justo e o injusto – capacidade esta que, obviamente, os membros do tal tribunal não apresentavam. 
O desejo de Platão é que esta virtude chegue a ser ensinável. Para este fim, vale-se de uma alegoria para fazer desabrochar o conhecimento interior, que outra coisa não é que o conhecimento de si. Um conhecimento que não vem pelos cinco sentidos (tato, olfato, paladar, audição e visão -- Tommy, por exemplo, é cego), e sim pela razão e pela intuição. O conhecimento que nos chega pelos sentidos, em filosofia, diz-se conhecimento sensível, por oposição ao conhecimento intelectual, por exemplo. O conhecimento sensível não é confiável e sequer mereceria, em sentido mais rigoroso, o nome de ‘conhecimento’. Por exemplo, quando a gente olha para o sol, ou para a lua, tem a impressão de que estes objetos não são maiores que uma bola de futebol. Ou seja, os sentidos revelam apenas as aparências. E as aparências enganam. Por detrás das aparências existe uma realidade mais sutil e menos perceptível. É esta realidade mais invisível que interessa ao filósofo. E é desta realidade, também, que trata a alegoria da caverna. Uns dizem que ela trata exclusivamente do conhecimento racional, lógico, outros, que ela vai além, e refere-se na verdade àquilo que nos chega através da alma. 
O que Platão nos revela sobre Sócrates é que ele acreditava que se podia aproximar das verdades mais secretas, mas que para tal deveríamos perceber o quanto os sentidos e as palavras iludem. Ou seja, aproximar-se da verdade significa valer-se antes do pensamento, pois é pelo pensamento que se passa da mera opinião para o conceito.
Muito bem, tudo isto que eu disse parece distante do projeto de vocês, desta nova realidade dos games, da Internet, etc., mas na verdade não é. Pois trata a alegoria da caverna sobre esta capacidade intuitiva de ver, que esta além do simples olhar, e que nos permite construir, ou reconstruir, nosso entendimento sobre os diversos níveis da realidade concreta ou mesmo daquela dita simplesmente virtual. A alegoria da caverna procura refletir sobre aquela que teria sido a grande missão de Sócrates: exemplificar como é possível abandonar o mundo das ilusões e sombras da caverna (nosso próprio corpo) para experimentar a luz do sol (ou do espírito puro). 
O método socrático ficou conhecido como maiêutica (parturar), pois ele dizia ser como sua mãe, que era parteira. Ela ajudava as mães no momento do parto; ele ajudava aos outros a parirem suas próprias idéias. Para deixar isto claro vou reconstruir livremente a fala de Sócrates na passagem do diálogo escrito por Platão que dá origem a alegoria da caverna. Sócrates fala para Glauco em linhas gerais o seguinte:
(continua post acima.)


por Projeto Jenova às 00h28
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